Em comunicado interno divulgado nesta quarta-feira (12), o diretor-geral de jornalismo da Globo, Ali Kamel, comunicou a saída de Silvia Faria, seu braço direito, em 31 de dezembro.
Na nota divulgada por Kamel, ele ressalta a amizade e respeito por sua colega, que estava na Globo desde 2001. “E um ser humano de primeira grandeza, como todos reconhecemos. Sabe ouvir, sabe liderar. Sabe consolar, sabe estimular. Tem sempre uma palavra de elogio, mesmo na crítica. E sabe organizar, inovar processos. Tudo fica melhor, mais ágil, depois que passa pelo olhar dela.”
Silvia já manifestava o desejo de sair da emissora desde o final de 2017, mas Kamel pedia para que ela continuasse com seu trabalho. “Levei um susto quando no fim de 2017 Silvia me disse que queria dar novo rumo à vida dela. Não se referia ao currículo brilhante que tem, porque não é disso. Mas dizia que já fez tudo, tinha orgulho de tudo e queria mais tempo para estudar, para viajar, para curtir a família.”
Em seu lugar, assumirá Ricardo Villela, hoje diretor-executivo de jornalismo da emissora. O jornalista é um dos responsáveis pela série “Marielle – O Documentário”, lançada em março deste ano.
Confira o comunicado na íntegra:
“Eu conheci a Silvia Faria em maio de 1991, quando cheguei a Brasília para dirigir a sucursal do Globo. Ela era repórter de economia e em muito pouco tempo se tornou coordenadora de economia na sucursal. Nós nos tornamos vizinhos, eu na QI 7 e ela na QL 7 do Lago norte. Quando voltei para o Rio em 1993, foi Silvia quem cuidou dos meus gatos por um bom tempo. Ano que vem, faremos 30 anos de amizade.
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Silvia começou cedo na profissão. Formou-se em 1979 na UnB e já era funcionária concursada do Banco do Brasil havia três anos, numa época em que isso significava estabilidade para a vida inteira, um empregaço. O que fez a Silvia? Pediu demissão porque fora efetivada no estágio que fazia no Jornal de Brasília. Paixão pelo jornalismo desde o início.
Começou então uma carreira vitoriosa. Em 1980, repórter da Folha de S.Paulo. Em 1986, repórter do Globo. Em 1990, repórter do Relatório Reservado, então um prestigiado informe de política e economia. Em 1991, voltou para o Globo quase ao mesmo tempo em que cheguei à cidade. Em 1993, coordenadora de economia da Folha em Brasília. Em 1994, chefe de redação do Globo em Brasília. Em 1997, coordenadora de Comunicação do Banco Central. Em 1999, diretora da sucursal de Brasília do Estadão. Em 2001, diretora da sucursal da revista Época em Brasília. Em 2001, chefe de Redação da Globo em Brasília. Em 2005, diretora de Jornalismo da Globo em Brasília. Em 2011, diretora-executiva de Jornalismo em Brasília. E, desde 2012, diretora de jornalismo da Globo (ou da Central Globo de Jornalismo, como chamávamos), meu braço direito (e esquerdo).
Um currículo de tirar o fôlego. Fez tudo, brilhou por onde passou. Colecionadora de furos e de grandes coberturas (nossa primeira cobertura juntos, cheia de furos, foi o impeachment de Collor).
E um ser humano de primeira grandeza, como todos reconhecemos. Sabe ouvir, sabe liderar. Sabe consolar, sabe estimular. Tem sempre uma palavra de elogio, mesmo na crítica. E sabe organizar, inovar processos. Tudo fica melhor, mais ágil, depois que passa pelo olhar dela.
Por tudo isso, levei um susto quando no fim de 2017 Silvia me disse que queria dar novo rumo à vida dela. Não se referia ao currículo brilhante que tem, porque não é disso. Mas dizia que já fez tudo, tinha orgulho de tudo e queria mais tempo para estudar, para viajar, para curtir a família. Como confio cem por cento nela, acreditei quando me disse que não tinha nenhum convite, não era esse o motivo.
Mas eu conheço a Silvia, e adiei os planos dela dizendo: mas vai sair antes das eleições de 2018? Ela deu um sorriso e disse: “Tá certo, fico até o fim de 2018”.
Passada a eleição, ela me cobrou: “Agora saio”. E eu disse: “Mas vai perder o primeiro ano desse governo, tantas marolas e algumas ondas pela frente?” De novo, eu a convenci, mas foi bem difícil. Ela impôs um prazo: dezembro de 2019.
Silvia é um doce, mas melhor não contrariar. Em agosto do ano passado, voltei à carga, e pedi que ficasse mais um ano. Depois de muito esforço, Silvia disse que ficaria até março.
Aí veio a pandemia, e Silvia não é de sair em meio a uma tempestade. Não voltamos a falar. Ficou me ajudando, como sempre, trabalho duro e pesado.
Até duas semanas atrás. Me chamou pelo Teams e disse: “Ali, saio em dezembro”. E pronto. Eu não pude mais pedir que ficasse. Já com três netinhos, não quer se aposentar. Mas está firme no propósito de estudar, de conhecer, de se engajar em outros projetos fora do jornalismo. E aproveitar a família.
Silvia fica onde está até dezembro. Temos a pandemia, as eleições, sempre um desafio à frente. Depois parte para as boas aventuras dela.
A minha sorte é que eu perco a companheira de trabalho, mas não a amiga. Mesmo quando em outras empresas, mantivemos laços estreitos. Eu disse outro dia num dos boletins Nossos Colegas que Brasília foi fundamental na minha vida. Fiz ali amizades para a vida toda. Com Silvia, uma das mais bonitas.
Isso não se perde. É um consolo.
O outro consolo é que Silvia deu tempo para que cuidássemos da sucessão. E ela se dedicou a isso. A posição que ocupa não é fácil, todos podem imaginar. E ela usou esse tempo em que esteve decidida a sair para ajudar a lapidar ainda mais seu sucessor, um talento como ela.
Depois de 31 de dezembro, assume o lugar da Silvia o Ricardo Villela.
Villela, como o chamamos, é um profissional de mão cheia. Apesar de ter começado a vida profissional no impresso, sempre nutriu um desejo grande de trabalhar em TV. E eu sou testemunha disso.
Em 2002, sem me conhecer, ele me mandou um e-mail (na época, eu publicava um artigo quinzenal no Globo, e meu e-mail aparecia ao final). Ele foi simpático, mas direto. Era o editor das revistas Domingo e Programa, do Jornal do Brasil, gostava do que fazia, as revistas repercutiam, mas ele queria fazer TV. E se colocava à disposição.
Sempre gostei de pessoas assim, que dizem o que pensam e o que querem sem maiores inibições. Trocamos algumas mensagens, mas a coisa não foi para a frente.
Em 2005, Villela era o redator-chefe da Playboy, da Abril, uma revista de muito prestígio especialmente pelas entrevistas e reportagens que trazia e não tanto por outros atributos (e quem for da minha geração saberá que não há ironia aqui). De novo, Villela me mandou um e-mail. De novo, ele me disse de sua vontade de trabalhar em TV.
Eu gostei do que li. E pedi que o Luiz Cláudio Latge, então diretor de Jornalismo em São Paulo, o procurasse para um almoço. Latge voltou, claro, muito empolgado. Mas não havia vaga. Ou melhor, havia, mas para cobrir férias como um dos editores do JG.
Eu disse para o Latge contar para ele. Caberia ao Villela decidir. E sabe o que o Villela fez? Tirou férias na Playboy e foi para o JG cobrir as férias do nosso colega. E ainda pediu para dobrar e fazer também o SP2.
Inusitado. A ponto de o Mariano Boni, então editor-chefe do JG, ficar com a impressão de que o real objetivo do Villela era se infiltrar ali para, depois, fazer uma daquelas reportagens de Playboy que elogiei há pouco.










































