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2 milhões de pessoas no show de Shakira são possíveis?

Estimativas de público em grandes eventos levantam dúvidas sobre precisão e segurança.

Shakira - POP Mais - Divulgação
A cantora Shakira - Foto: Divulgação

O anúncio de que cerca de 2 milhões de pessoas devem comparecer ao show da cantora colombiana Shakira, marcado para este sábado (2) na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, reacendeu um antigo debate: afinal, é possível reunir tanta gente em um único evento — e quão confiáveis são essas estimativas?

Segundo dados oficiais, o evento deve custar aproximadamente R$ 15 milhões aos cofres públicos e pode movimentar até R$ 800 milhões na economia local. Ainda assim, especialistas questionam a precisão das projeções de público frequentemente divulgadas em grandes eventos.

Estimativas infladas e controvérsias recorrentes

Não é a primeira vez que números elevados geram controvérsia no Rio. Em 2025, um show de Lady Gaga em Copacabana foi anunciado pela prefeitura como tendo reunido 2,1 milhões de pessoas. No entanto, análises independentes apontaram que o público real poderia estar entre 600 mil e 660 mil — uma diferença significativa.

Casos semelhantes ocorrem há décadas, tanto no Brasil quanto no exterior. Em eventos políticos, por exemplo, divergências entre organizadores e autoridades são comuns, com diferenças que chegam a centenas de milhares de pessoas.

Especialistas afirmam que essa discrepância muitas vezes ocorre por falta de metodologia rigorosa. “As pessoas são muito ruins em estimar multidões apenas olhando”, explica o pesquisador Márcio Moretto, da USP.

Como se calcula o tamanho de uma multidão

Hoje, o método mais utilizado é baseado em um cálculo relativamente simples: medir a área ocupada e multiplicar pela densidade de pessoas por metro quadrado. Essa técnica, conhecida como método de Jacobs, é amplamente aplicada em estudos e análises jornalísticas.

A densidade considerada segura gira em torno de 3 a 5 pessoas por metro quadrado. Acima de 4,5, já há risco para a segurança do público. Em situações extremas, como metrôs lotados, esse número pode chegar a 9 pessoas por metro quadrado — um cenário considerado crítico.

Aplicando esses parâmetros à extensão de Copacabana, especialistas afirmam que seria difícil atingir números na casa dos milhões. Algumas estimativas apontam que o limite mais plausível estaria abaixo de 800 mil pessoas.

Infraestrutura também levanta dúvidas

Outro ponto levantado por pesquisadores é a capacidade da cidade de suportar multidões tão grandes. Indicadores como transporte público, quantidade de banheiros químicos e volume de lixo gerado não condizem com eventos de milhões de participantes.

Para a professora de turismo Mariana Aldrigui, da USP, há uma tendência de inflar números por falta de questionamento. “Muitas vezes, ninguém duvida dessas estimativas, e isso acaba criando uma cultura de exagero”, afirma.

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Infográfico mostra dois mapas demonstrando quanto de área 2 milhões de pessoas precisaram ocupar da faixa de areia da praia da Orla de Copacabana e das ruas do bairro – Foto: BBC News Brasil

Tecnologia traz mais precisão — mas com limites

Nos últimos anos, novas tecnologias têm sido usadas para melhorar a contagem de público. Entre elas, o uso de drones com imagens aéreas e algoritmos de análise, além de dados de telefonia móvel para estimar quantas pessoas estão em determinada área.

Apesar dos avanços, esses métodos também têm limitações, como dificuldade em medir fluxo de entrada e saída ou restrições de acesso a dados sensíveis.

Especialistas defendem que a combinação de diferentes técnicas pode aumentar a confiabilidade das estimativas.

Por que os números importam

Mais do que uma disputa simbólica, a precisão na contagem de público tem implicações práticas. Superestimar a capacidade de um espaço pode colocar vidas em risco, além de impactar diretamente o planejamento de segurança, transporte e infraestrutura.

Além disso, números inflados podem distorcer o debate público, especialmente em eventos políticos, onde o tamanho da multidão costuma ser usado como indicador de apoio popular.

Para pesquisadores, o mais importante não é alcançar um número exato, mas adotar métodos transparentes e consistentes ao longo do tempo. Isso permite comparações mais justas e decisões mais informadas.

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Diego Cartaxo é radialista, jornalista e empreendedor digital. Com trajetória marcada pela inovação na comunicação e no entretenimento, é fundador e Editor-chefe do Portal POP Mais, hoje considerado um dos principais veículos independentes de cultura pop e variedades em crescimento no Brasil. Antes do site, trabalhou na TV Metrópole, onde atuou na reestruturação da marca e da programação da emissora.

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