O cineasta britânico Peter Watkins, conhecido por romper as fronteiras entre ficção e documentário, morreu na última quinta-feira (30), aos 90 anos. O diretor de The War Game (O Jogo da Guerra) faleceu em um hospital na comuna francesa de Bourganeuf, próxima a Felletin, onde vivia há cerca de 25 anos.
Em comunicado, a família lamentou a perda e destacou o legado do artista:
“O mundo do cinema perde uma de suas vozes mais incisivas, inventivas e inclassificáveis. Gostaríamos de agradecer a todos que o apoiaram ao longo dessa longa e, por vezes, solitária luta.”
O jornal português Público descreveu Watkins como “um dos grandes cineastas desconhecidos”, ressaltando sua contribuição para “abolir as fronteiras entre ficção e documentário”.
Nascido em 1935 nos arredores de Londres, Watkins começou a filmar após cumprir o serviço militar obrigatório. Em 1962, iniciou colaboração com a BBC, onde realizou curtas e docudramas inovadores, como Forgotten Faces (1956), sobre a revolta húngara contra o domínio soviético.
Seu primeiro grande destaque veio com Culloden (1964), uma recriação da rebelião jacobita do século XVIII. O filme chamou atenção pela abordagem híbrida, que combinava estética documental, linguagem jornalística e elenco formado por não profissionais — um formato que se tornaria sua marca registrada.
Dois anos depois, Watkins realizou The War Game (1965), uma simulação impactante dos efeitos de um ataque nuclear sobre o Reino Unido. Considerado “perturbador demais” pela BBC, o filme teve sua exibição proibida por duas décadas, mas acabou vencendo o Oscar de Melhor Documentário e foi amplamente elogiado pela crítica internacional. A obra só seria transmitida na televisão britânica em 1985, no 40º aniversário do bombardeio de Hiroshima.
Após o rompimento com a BBC, Watkins seguiu carreira fora do Reino Unido. Dirigiu o extenso Edvard Munch (1974), sobre o pintor norueguês, considerado por muitos uma de suas obras-primas, e um monumental retrato do dramaturgo sueco August Strindberg (1980), com mais de 14 horas de duração. Em 2000, apresentou La Commune (Paris, 1871), sobre o levante popular que instaurou um governo revolucionário em Paris, exibido no Museu d’Orsay.
Figura cultuada entre cineastas e estudiosos, Peter Watkins deixa uma filmografia singular, marcada pelo rigor político, pela experimentação estética e pela crítica contundente aos meios de comunicação de massa. Seu legado segue como referência fundamental para o cinema engajado e as narrativas documentais contemporâneas.









































