Um registro histórico dos Mutantes, gravado em Portugal no fim dos anos 1960, finalmente foi revelado ao público após mais de meio século guardado nos arquivos da Rádio e Televisão de Portugal (RTP). O vídeo, considerado um documento raro da psicodelia brasileira no exterior, mostra a banda em apresentação e entrevista no programa Discorama, além de imagens do grupo circulando por pontos emblemáticos de Lisboa.
A liberação do material foi resultado de décadas de negociações conduzidas por Arnaldo Baptista e Lucinha Barbosa junto à emissora portuguesa. Após a autorização oficial, surgiu um novo desafio: encontrar uma plataforma capaz de acolher um conteúdo de grande valor histórico, mas sem fins comerciais. A tentativa inicial de publicação no YouTube foi barrada por alegações automáticas de direitos autorais, mesmo sem qualquer intenção de monetização.
Diante das dificuldades impostas pelas plataformas digitais, a divulgação do vídeo seguiu caminhos alternativos. Para os envolvidos, o material deveria integrar o acervo de um Museu da Música Brasileira — instituição que ainda não existe de forma plenamente estruturada no país —, dada sua relevância para a memória cultural nacional.
A gravação revela os Mutantes em plena efervescência criativa, período em que o grupo mesclava rock psicodélico, humor irreverente e experimentações sonoras com instrumentos e equipamentos eletrônicos desenvolvidos por Cláudio César Baptista, irmão de Arnaldo. O vídeo inclui ainda uma entrevista concedida ao apresentador Carlos Cruz e cenas da banda visitando Belém, a Torre e o Castelo de Lisboa.
Tropicalismo em terras lusitanas
A passagem dos Mutantes por Portugal ocorreu em um contexto político marcado pela repressão nos dois países. Enquanto o Brasil enfrentava os anos mais duros da ditadura militar, Portugal vivia o final do regime salazarista, então sob o governo de Marcelo Caetano. Nesse cenário conservador, a presença de Arnaldo Baptista, Rita Lee, Sérgio Dias, Liminha e Dinho representou um choque estético e cultural.
A turnê europeia foi também um dos últimos momentos da formação clássica da banda no exterior, pouco antes das tensões internas que culminariam na saída de Rita Lee e na posterior guinada de Arnaldo em direção ao rock progressivo. O registro português é, portanto, um testemunho singular da antropofagia cultural proposta pelo tropicalismo: os Mutantes não apenas tocavam rock, mas reinventavam a tradição europeia com uma linguagem brasileira, irreverente e eletrificada.
Mais do que uma apresentação musical, o vídeo se consolida como um documento sobre liberdade criativa em tempos de repressão, no qual cada nota e intervenção artística funciona como gesto de resistência cultural e expansão da consciência.














































