Morreu nesta terça-feira (19), aos 80 anos, Waldirene Nogueira, reconhecida como a primeira mulher trans do Brasil a passar por uma cirurgia de redesignação sexual. Natural de Lins, no interior de São Paulo, ela faleceu em Ubatuba, no litoral norte paulista, em decorrência de insuficiência respiratória aguda. A informação foi confirmada pela família.
Segundo Alessandra Cotrim, sobrinha de Waldirene, ela vivia acamada e recebia cuidados de um dos irmãos em Ubatuba. O corpo será levado para Lins, onde será velado nesta quarta-feira (20), a partir das 7h, no Memorial Santa Izabel. O sepultamento está previsto para ocorrer às 17h, no Cemitério da Saudade.

Uma trajetória marcada pela coragem e pioneirismo
Nascida em 1945, Waldirene foi registrada ao nascer como Waldir Nogueira. Em uma época de forte preconceito e ausência de reconhecimento às pessoas trans no Brasil, iniciou em 1969 um acompanhamento médico no Hospital das Clínicas de São Paulo com a endocrinologista Dorina Epps.
Após dois anos de avaliações médicas e psicológicas, recebeu o laudo que reconhecia sua transexualidade. Em dezembro de 1971, passou pela cirurgia de redesignação sexual no Hospital Oswaldo Cruz, em São Paulo, realizada pelo cirurgião plástico Roberto Farina. O procedimento ficou marcado como o primeiro do tipo realizado no país.
Batalha judicial e luta por reconhecimento
A cirurgia colocou Waldirene no centro de uma intensa disputa judicial e social. Ao tentar alterar seus documentos civis, viu o médico Roberto Farina ser condenado a dois anos de prisão por lesão corporal gravíssima em razão do procedimento.
Em 1976, Waldirene foi levada coercitivamente ao Instituto Médico Legal (IML), onde passou por exames invasivos e foi fotografada nua. Mesmo diante da exposição e do preconceito, ela permaneceu firme na defesa do médico, reunindo cartas de apoio de autoridades, amigos e familiares.
O reconhecimento oficial de sua identidade também demorou décadas. O pedido para mudança de nome foi inicialmente negado, e ela permaneceu registrada como Waldir por muitos anos. A retificação da certidão de nascimento só foi autorizada em 2010, quando tinha 65 anos. O novo RG foi emitido no ano seguinte.
Vida discreta e legado histórico
Formada em contabilidade, Waldirene nunca conseguiu exercer a profissão devido à incompatibilidade entre sua identidade de gênero e os documentos civis. Ao longo da vida, trabalhou como manicure e optou por viver de forma discreta, longe dos holofotes.
Apesar disso, sua trajetória se tornou um marco na história da população trans no Brasil. Waldirene Nogueira deixa um legado de coragem, resistência e luta por dignidade, abrindo caminhos para o reconhecimento dos direitos das pessoas trans no país.








































